Cuide bem de seus dentes e gengivas
Quem quer agradar (ou conquistar) o parceiro ou parceira, arranjar emprego ou, mesmo, causar boa impressão na roda de amigos, sabe: cuidar da boca é essencial. Sorriso aberto, dentes saudáveis, limpos e bonitos podem funcionar como um verdadeiro cartão de visitas.
Mais importante do que o aspecto meramente estético são os benefícios à saúde que isso é capaz de representar - pois a boca representa a porta de entrada para diversos agentes microscópicos, especialmente bactérias. No caso de soropositivos, é bom ter atenção especial: os problemas de dentes e gengivas são freqüentes e ocorrem por infecções devidas ao próprio HIV e a certos medicamentos, entre outros motivos. Nesta edição, Cadernos Pela Vidda aborda alguns desses problemas e, principalmente, como evitá-los e tratá-los.
Principais problemas
Se aparecerem problemas nas gengivas ou em um ou vários dentes, de modo contínuo ou apenas em certos momentos, ou se os dentes são sensíveis ao calor ou ao frio, é preciso consultar rapidamente um dentista. A dor é sempre um sinal de um transtorno que não devemos ignorar.
Sangramento nas gengivas
Caso as gengivas sangrem durante a escovação é aconselhável utilizar um dentifrício gengival especial e escovar bem os dentes, com muita regularidade. Isto deve bastar para que o sangramento pare. Persistindo o problema mesmo com uma boa higiene dental (ou se ocorrer entre as escovações) é sinal da presença de uma doença nas gengivas chamada gengivite. Não se desespere: continue - óbvio - escovando os dentes e consulte um dentista, o mais rápido possível.
Boca seca
As pessoas que apresentam pouca saliva costumam ser as que mais sofrem por problemas de gengivas e dentes. Esta insuficiência de saliva pode ser causada pelo fumo; por diversas doenças, em especial, as que acontecem em conseqüência da Aids; pelo uso de remédios anti-retrovirais (principalmente Videx); antidepressivos ou medicamentos à base de opiáceos (morfina, codeína, metadona etc.). Quando se tem a boca seca deve-se implementar uma excelente higiene dental. Há, ainda, a possibilidade de conversar com o médico e pedir para que ele prescreva um remédio destinado a aumentar a secreção de saliva. Mascar chicletes sem açúcar e beber freqüentemente um pouco de água também ajudará.
À noite, pode-se colocar junto à cama um umidificador de ar.
Mau-hálito
Ainda que, às vezes, possa ser causado pelo fumo, por certos alimentos (alho, cebola etc.) ou por dificuldades de digestão, o mais comum é que o mau hálito indique um problema na boca, dentes ou gengivas. Por isso, o aconselhável é uma boa conversa com o médico e com o dentista. A exemplo da boca seca, uma boa dica é mascar chicletes sem açúcar e tomar um pouco de água, várias vezes ao dia.
Sangue na boca e vírus
A presença de sangue na boca acarreta em risco de transmissão de hepatite B e - teoricamente - da hepatite C e do HIV. Para evitar inquietações injustificadas, é útil lembrar que tal perigo só existe se:
- O sangue estiver presente em quantidade relevante.
- O(a) parceiro(a) apresenta irritação ou feridas na mucosa.
Por prudência, é preferível evitar os beijos profundos (com a língua) nas horas que se seguem aos cuidados dentários (depois da escovação dos dentes ou uso do fio dental, em gengivas que costumam sangrar). Os mesmos conselhos se aplicam ao sexo oral sem preservativo.
Em soropositivos
Diferentes doenças podem por vezes atingir a boca das pessoas HIV-positivas. Entre elas, pode-se destacar leucoplasia, candidíase, herpes, aftas, verrugas, kaposi etc. Qualquer anomalia na parte interna da boca (como ferida, espinha, massa esbranquiçada, bolha etc), ainda que não cause dor, merece ser relatada ao médico.
Gengivas saudáveis
As doenças de gengiva (gengivite, periodontite) são freqüentes em adultos e, mais ainda, em soropositivos, que podem ser atingidos por formas severas e de rápida evolução. É comum (e totalmente errado) que sejam negligenciadas até se tornarem críticas, por não provocarem dor. Consulte rapidamente um dentista e converse com seu médico se as gengivas estiverem muito vermelhas ou sensíveis; se sangrarem; se houver mau-hálito ou se, em um estágio mais avançado, as gengivas se retraírem ou os dentes ficarem "bambos".
Lembrando: uma boa higiene dental com escovação mínima de duas vezes por dia e uso do fio dental, assim como retirada de tártaros semestralmente pelo dentista, permitem, na maioria dos casos, evitar maiores crises.
Causas da gengivite
No período entre uma escovação e outra uma placa bacteriana ("mistura" de restos de alimentos, saliva e bactérias) vai se acumulando nas junções dos dentes e das gengivas. Com o passar do tempo, caso não sejam eliminadas por escovação adequada e pelo fio dental, as bactérias vão se multiplicando e se acumulando, transformando-se em uma substância dura conhecida como tártaro. Esse tártaro vai se fixando em volta dos dentes e se infiltrando na gengiva, trazendo na "bagagem" a temida gengivite. Entre os sinais da doença figuram vermelhidão na área; gengivas mais brilhantes; sangramento a cada escovação e dentes sensíveis ao contato. No primeiro estágio do problema os cuidados são simples: normalmente basta o dentista realizar uma cuidadosa retirada de tártaros. Se necessário, irá prescrever um tratamento com antibiótico e dedicação quanto à higiene dental. A evolução da gengivite acontece de forma diferente de pessoa para pessoa, por fatores diversos como hereditariedade, qualidade dos dentes, imunidade ao nível da boca, sendo que o estresse e o fumo têm um papel desfavorável.
A evolução para periodontite
Quando a gengivite não é rapidamente tratada, a infecção bacteriana progride, atingindo o ligamento dentário e, depois, o osso. As gengivas se retraem, deixando a descoberto a base dos dentes, ou se "afundam" em volta dos dentes, que podem passar a se movimentar e (se não forem cuidados a tempo!) terminam por cair. Tal processo leva vários meses ou, até mesmo, anos. Quanto mais cedo se tomar providência, maior será a chance de deter a evolução.
Tratando a periodontite
Os cuidados variam conforme a situação e geralmente se iniciamcom a retirada profunda dos tártaros (chamada também de curetagem), tratamento que requer várias sessões, com o uso de anestesia local. Nesta fase é comum que o dentista prescreva antibiótico, como complemento. Em situações de periodontite avançada o dentista deverá propor cuidados mais complexos, como limpeza das raízes dentárias, cirurgia da gengiva etc. Em todos os casos de periodontite, no entanto, é recomendável uma higiene dental especial, com técnicas diferenciadas de escovação, uso de anti-sépticos, bochechos etc.
Gengivites e periodontites em HIV+
Pessoas soronegativas também podem apresentar graves problemas de gengiva. Entretanto, tais doenças são mais freqüentes em portadores do vírus da Aids (principalmente se o CD4 for inferior a 200) e diabetes. Além das gengivites e periodontites "clássicas", soropositivos podem desenvolver formas mais graves e rápidas, que se não tratadas a tempo, levam à destruição do periodonto e à perda dos dentes, oferecendo, ainda, o risco de septicemia (passagem das bactérias para o sangue). São elas:
- Gengivite e periodontite ulcero-necróticas: as gengivas ficam vermelhas, sangram, racham, retraem-se e o hálito demonstra odor ruim. Esta doença provoca uma forte dor nos maxilares;
- Eritema gengival linear: uma faixa vermelha surge na junção das gengivas com os dentes, sobre vários dentes ou sobre todo o maxilar (é uma reação das gengivas à infecção). Somando-se a tudo isso, por se tratarem de infecções por bactérias, a gengivite e a periodontite podem causar efeitos sobre a saúde em geral, ocasionando enfraquecimento da imunidade e, no caso das periodontites graves, risco cardiovascular (para o coração e vasos sangüíneos). Em mulheres grávidas, há o perigo de parto prematuro.
O bê-á-bá dos cuidados
Princípio básico: escovar os dentes. O ideal seria que esta tarefa fosse realizada, sem exceção, após as refeições. Caso isso não seja possível, escovar de manhã e à noite já ajuda. Os dentistas recomendam o uso de uma escova macia comum e um dentifrício contendo flúor. A escova de dentes deve ser trocada quando apresentar sinais de desgaste ou após uma infecção que tenha atingido a boca, como candidíase, herpes, abscesso etc. Eventualmente, nas épocas em que o médico recomendar suspensão da escovação por causa de alguma infecção local, deve-se fazer um efetivo bochecho depois de cada refeição.
Como escovar os dentes?
Escove todas as faces, ou seja, cada lado e base inferior - sem esquecer da língua e dos dentes que ficam no fundo da boca. A junção da gengiva e dos dentes deve também ser escovada, tanto na face anterior, como na posterior. Faça suaves movimentos verticais (delicadamente, para não irritar as gengivas). A escovação precisa demorar pelo menos dois minutos, eliminando assim a placa bacteriana (comida, saliva e bactérias que se depositam).
Fio dental
O uso do fio dental - pelo menos, uma vez ao dia - é necessário para a saúde dos dentes e gengivas. Corte cerca de quinze centímetros envolvendo uma extremidade em volta de cada dedo médio. Com o dedo indicador, exerça pressão, passando o fio, suavemente, nos espaços entre os dentes. Às vezes, na primeira semana de uso, a gengiva sangra um pouco, mas isso passa.
Bochecho com produtos específicos
Antes de começar um tratamento que empregue essa prática com regularidade é preciso consultar o dentista. Isso porque os produtos à base de álcool podem causar irritação. Para as pessoas que têm necessidade de realizar bochechos, os produtos que contêm clorexidina estão entre os mais aconselhados. Após o uso, deve-se cuspir o líquido (não engolir).
Açúcar e fumo
O açúcar favorece a multiplicação das bactérias na boca. Então, se há problemas de dentes ou gengivas, recomenda-se escovar os dentes logo após a refeição seguida por sobremesa açucarada. Evite o consumo de alimentos ou bebidas açucaradas entre as refeições e - literalmente - fuja dos alimentos que, além de açucarados, são colantes (balas moles, caramelos etc.). Na verdade, o ideal é substituir alimentos e líquidos açucarados por doces e bebidas "light" e adoçantes. Chicletes sem açúcar até contribuem para a limpeza da boca. Por sua vez, o fumo favorece as doenças de gengiva. Se possível, portanto, pare de fumar.
Sem medo do dentista
É de grande utilidade consultar um dentista, ao ser verificado algum problema dentário ou de gengivas, ainda que não causem dor. Quando tudo está bem, é aconselhável visitar o dentista para controle e retirada de tártaros: as técnicas utilizadas para este fim progrediram muito e oferecem um conforto bem maior do que antigamente.
Implantes
Servem para substituir a falta de um ou de mais dentes. Compõe-se de uma parte em titânio, fixada no osso do que não toca em outros dentes. Em situações que envolvam implantes, o recomendável é dirigir-se a um dentista especializado. Entretanto, não se aconselha fazer implantes em pessoas cuja imunidade está enfraquecida (CD4 baixo) ou ainda, em caso de problemas sérios no periodonto. Nestas situações, há o risco de que o implante não se fixe bem ou, pior, seja favorecido o desenvolvimento de infecções. Outra dificuldade tem sido encontrar um especialista que aceite fazer o implante em pessoas soropositivas.