A Mostra

A idéia da Mostra é usar um evento de apelo cultural para falar sobre Aids. Assim, um vasto painel do tema é traçado a partir da seleção de filmes que trazem a infecção pelo HIV como tema central ou pano de fundo. Em alguns títulos a Aids é o tema central, em outros aparece na trama ou na vida de um dos personagens.

Ao longo de mais de duas décadas da epidemia não foram poucos os autores e diretores que transformaram a Aids em fonte de inspiração e utilizaram o cinema para tratar da “doença do século”. E, por isso, provocaram diversas reações: da polêmica à comoção, do medo à conscientização, da ironia à indiferença. Os títulos da Mostra representam respostas e perplexidades do cinema frente à Aids, alertam para a necessidade da prevenção e da eliminação do preconceito e testemunham as dificuldades do viver com HIV em nossa sociedade.

Cinema Mostra Aids é uma realização do Grupo pela Vidda/SP, ONG que atua há 15 anos na luta contra a Aids. Esta é a segunda edição do evento, realizado pela primeira vez em 1997. A Mostra só foi possível graças ao trabalho voluntário de inúmeros colaboradores, especialmente do Espaço Unibanco de Cinema ; do Festival MIX Brasil; além de equipe do próprio Grupo Pela Vidda/SP. O evento também mobilizou jornalistas especializados em cinema, distribuidoras de filmes e contou com a parceria do Programa Estadual de DST/Aids da Secretaria de Estado da Saúde.

Uma conversa a ser espalhada (por Cristian Petermann)
As mais de duas décadas de convivência com a aids criaram uma nova linguagem. Uma nova linguagem médica, comportamental, física, artística. O cinema contribuiu com a discussão da questão da Aids, talvez com menos freqüência do que o desejado e esperado. É óbvio, porém, que ele, de um modo geral, reagiu à nova realidade. Idéias são humanas, e seres humanos fazem os filmes. Não há ser humano que tenha permanecido o mesmo com esses tempos de precaução. Não há cinema que possa ter passado ileso à sua interferência: são perdas, são memórias, são uniões e é uma grande necessidade de trocar idéias e emoções.

Os diferentes pontos de vista sobre como reagir à síndrome interagem e apresentam novos conceitos de sexo (seguro) e amor. Não há regras, apenas padrões preventivos a serem seguidos. Neste sentido os cineastas se viram livres para discutir o assunto de forma por eles tida como a adequada. Todos estão no mesmo campo de futebol. É interessante ver como espectadores curiosos, estudiosos, interativos ou apenas simpatizantes reagem a filmes de leitura debochada, que apelam para o desbunde e o humor negro. Há filmes que tocam fundo e de forma emocionada na dor da perda, mas também dão a volta por cima e fazem a festa. É uma forma de encarar as coisas.

Os painéis históricos reconstituídos em ficções cinematográficas são outros exemplos vigorosos de como há pessoas que querem espalhar essa conversa por todos os lados. E que o façam. Em torno do preconceito, da ignorância, também das drogas e da dor, há muito o que falar. Já se foram mais de vinte anos, e muitos ainda se calam em vão. Não é possível entender. É uma questão de humanidade. É uma questão de posteridade. É redundante declarar o quão importante é uma mostra como esta.

Christian Petermann
Crítico de Cinema