Filmes

A CURA
A VELOCIDADE DE GARY
ABC AFRICA
A-LIST
AMOR E RESTOS HUMANOS
ANTES DO ANOITECER
AS HORAS
CLUBE DOS CORAÇÕES PARTIDOS
CORAÇÕES APAIXONADOS
DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO
EU AMO ESSE HOMEM

FIGHT BACK, FIGHT AIDS: 15 Years Of Act Up
FILADÉLFIA
KIDS
MEU QUERIDO COMPANHEIRO
NOITES FELINAS
O PRESENTE
PACIENTE ZERO
RSVP
TERRA DE SONHOS
THE DEAD BOYS CLUB
TUDO SOBRE MINHA MÃE
UM AMOR QUASE PERFEITO


CINEMA MOSTRA AIDS 6 a 12 de agosto de 2004

A CURA
(The Cure, EUA, 1995, 99min)
Direção: Peter Horton
Elenco: Joseph Mazzello; Annabella Sciorra; Brad Renfro; Diana Scarwid; Bruce Davison; Aeryk Egan; Renée Humphrey; Nicky Katt

Emocionante, mas daquela maneira que não é constrangedor chorar à beça, esse drama aborda a Aids do ponto de vista infantil e em tom de fábula ingênua. Tal fórmula faz da fita um exemplar único no gênero, apoiada na cativante interpretação da dupla central. Numa pequena cidade americana, o conservadorismo reduz a vida do garotinho Dexter (Joseph Mazzello) a quase uma prisão domiciliar. Ele contraiu o vírus HIV numa transfusão de sangue e os efeitos já são visíveis no corpo franzino. A vizinhança não quer saber dele por perto e a mãe (Annabella Sciorra) pouco pode fazer a não ser se conformar. O único a romper o bloqueio é o garoto Erik (Brad Renfro). Juntos, os companheiros se lançam na aventura de descobrir a cura da doença. Vale de tudo, de chás milagrosos a um possível elixir, que exige uma fuga e muita confusão para os dois amigos.

 
 

A VELOCIDADE DE GARY
(The Velocity Of Gary, EUA, 1998, 100 min.)
Diretor: de Dan Ireland
Elenco : Salma Hayek; Thomas Jane; Chad Lindberg; Olivia D'Abo; Vincent D'Onofrio; Shawn Michael Howard; Khalil Kain; Danny Arroyo; Marion Eaton; Ethan Hawke; Tzi Ma; Jacob Sidney

Ficou inédito nos cinemas brasileiros esse drama dos anos 90, que traz no elenco nomes hoje consagrados. A mexicana Salma Hayek (Frida) interpreta Mary Carmen, uma mulher apaixonada por Valentino (Vincent D'Onofrio), um ator de filmes pornográficos. Quando este conhece o garoto de programas Gary (Thomas Jane), a relação entre o casal estremece. A situação se agrava quando Valentino descobre ser HIV positivo. Para abrandar os últimos dias de vida do amado, Mary Carmen não se importa de dividir o amor de Valentino com Gary. Está formado um explosivo triângulo amoroso. À vontade nos papéis de bi e homossexual, D'Onofrio e Thomas Jane (o astro do ainda inédito O Justiceiro) protagonizam calorosas cenas de sexo.

^TOPO^

 
 

ABC AFRICA
(ABC África, Irã / França, 2001, 085 min)
Diretor: Abbas kiarostami

 

O cinema poético do iraniano Abbas Kiarostami (Gosto de Cereja) abre exceção neste documentário para uma tarefa triste e dolorosa. O diretor recebeu da ONU a incumbência de conhecer e filmar, em Uganda, o drama das crianças órfãs de pais soropositivos. O resultado, em registro digital, não poderia ser convencional e o cineasta faz de sua própria surpresa frente à tragédia o objeto de reflexão. Como a proliferação da doença está intimamente ligada à miséria, a fita também é um retrato do cotidiano penoso do povo africano, questionado em conversas e depoimentos informais.

 

 

A-LIST
(A-List - Life and Death on the A-List)
EUA - 045 min - 1996.
Diretor: Jay Corcoran

O nome de Tom McBride (1952-1995), morto em decorrência de complicações da Aids, pode não signifcar muito por aqui. Mas na América sedenta por símbolos de correção política, ou simplesmente de beleza e sucesso, McBride foi ídolo ao incorporar o Homem de Marlboro --- sim, aquele mesmo dos comercias. Neste documentário, o ator e modelo, já visivelmente abatido, põem na mesa e discute a beleza que o incluiu na chamada A-List --- expressão que denota os homens gays mais bonitos e desejados --- e a revelação da doença que o tirou da lista dos melhores. Mas antes de fazer a óbvia relação do homem bonito que agora se dissipa, McBride prefere apontar a perda do poder de atração, da atividade sexual drasticamente interrompida, dos garotos bonitos que não pode mais conquistar e da pouca ou nenhuma importância de alguns deles no passado.

 

AMOR E RESTOS HUMANOS
(Love And Human Remains, Canadá, 1993, 104 min.)
Diretor: Denys Arcand
Elenco: Thomas Gibson; Ruth Marshall; Cameron Bancroft; Matthew Ferguson; Joanne Vannicola; Mia Kirshner; Rick Roberts

Numa visão pouco otimista das relações amorosas, o cineasta canadense Denys Arcand vai fundo em temas como a obsessão no limite da psicose, solidão e o egoísmo, painel em que a Aids serve como instrumento de redefinição. Conseguiu realizar uma síntese das preocupações e ansiedades da geração dos anos 90. O centro da ação é o ator frustrado e garçon David (Thomas Gibson), homossexual que divide o apartamento com uma jovem editora de livros (Ruth Marshall). Ambos rondam a cidade em busca do amor ideal, mas só convivem com personagens sombrios, como o jovem yuppie que se aconselha com David, outro jovem indeciso na sexualidade que o persegue, ou ainda a garota lésbica apaixonada por Candy. É um parceiro de David que aparece com a notícia de um exame de HIV positivo. Para reforçar o tom dramático da fita, um serial killer assusta a cidade com assassinatos misteriosos.

 
 

ANTES DO ANOITECER
(Before Night Falls, EUA, 2000, 125 min)
Diretor: Julian Schnabel
Elenco
: Javier Bardem, Johnny Depp, Sean Penn

O foco desse drama biográfico é antes de tudo o amor e a rebeldia --- na política, no sexo, na vida--- que a Aids consome num epílogo melancólico. O herói desregrado em questão é o escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990), jovem homossexual de origem pobre que divide seu tempo entre os prazeres idílicos da ilha, a literatura, os parceiros e a boa disposição para o engajamento político. Chega a se unir aos revolucionários para levar Fidel Castro ao poder. Mas quando este chega lá, mostra pouca ou nenhuma

simpatia por algumas categorias, gays e artistas incluídos. Arenas pena sete anos na prisão e por fim migra para Nova York, onde adoece e morre. O diretor Julian Schnabel, para usar uma expressão apropriada a sua face de pintor, por vezes carrega nas tintas. Mas o realizador conta com uma interpretação forte e cativante de Javier Bardem, como Arenas, especialmente na passagem da prisão, quando também Johnny Depp marca presença no papel do travesti Bon Bon.

 
 

AS HORAS
(The Hours, EUA, 2002, 116 min.)
Diretor: Stephen Daldry
Elenco: Jeff Daniels; Nicole Kidman; Julianne Moore; Ed Harris; Toni Collette; Claire Danes; John C Reilly; Miranda Richardson; Meryl Streep

No personagem de Ed Harris, um escritor soropositivo, angustiado e à beira da morte, está uma das representações mais perturbadoras da aids no cinema recente. A dor da tragédia é dividida com sua ex-amante (Meryl Streep), num momento em que esta organiza uma festa para homenageá-lo. A reação perante a doença é simbólica de um período e de uma personalidade que, antes de procurar conviver com o vírus, caminha para o desespero e a entrega. O episódio no filme de Stephen Daldry ( Billy Elliot ) é uma adaptação para os dias atuais do romance Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, e se soma a mais duas histórias --- uma sobre a vida da escritora inglesa (interpretada por Nicole Kidman) e outra de uma dona de casa em crise (Julianne Moore).

 
 
 

CLUBE DOS CORAÇÕES PARTIDOS
(The Boken Hearts Club, EUA, 200, 94 min)
Diretor: Greg Berlanti
Elenco: Dean Cain, Nia Long, Timothy Plyphant, Michael Bergin, Andrew Keegan.

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O fantasma da Aids, a solidão e o real valor da amizade entre homossexuais estão por trás dessa fita de estréia do produtor e roteirista dos seriados Dawson's Creek e Everwood. Diretor e roteirista, Berlanti pretende

fugir aos estereótipos enfocando um grupo de amigos que praticam softball. A história começa no aniversário do fotógrafo Dennys (Timothy Olyphant). Ao redor dele, gravitam, entre outros personagens, o revoltado saradão Benji (Zach Braff), o problemático estudante de psicologia Howie (Matt McGrath), o amargo Patrick (Ben Weber) e o veterano Jack (John Mahoney), dono de um restaurante onde todos se reúnem. Protagonista da série As Novas Aventuras de Superman, Dean Cain interpreta um ator hollywoodiano "galinha"

 

CORAÇÕES APAIXONADOS
(Playing By Heart, EUA, 1998, 120 min.)
Diretor: Willard Carroll
Elenco: Sean Connery; Gillian Anderson; Dennis Quaid; Angelina Jolie; Madeleine Stowe; Gena Rowlands; Ryan Phillippe; EllenBurstyn; Anthony Edwards; Jay Mohr; Jon Stewart; Matt Malloy; Christian Mills; Patricia Clarkson; Nastassja Kinski; Daniel Von Bargen

 

A fórmula de várias tramas e personagens que seguem paralelos e convergem ao final é um dos recursos favoritos do cinema atual. Este drama está um pouco lá trás dessa moda e merece ser conhecido pela fluência e pelo charme do roteiro e, principalmente, o belo elenco reunido. Pela imponência e experiência frente às câmeras, Sean Connery e Gena Rowlands podem ser considerados os líderes dos doze papéis (os mais significativos) costurados no painel. Como Paul e Hannah, eles se aproximam do aniversário de 40 anos de casamento e tem uma inesperada conta a acertar. Casais, ou quase casais, em crise dominam a cena. Há as mulheres (Gillian Anderson, Angelina Jolie, Madeleine Stowe) inconformadas com o desprezo dos parceiros (Jon Stewart, Ryan Phillippe, Dennis Quaid) e outros problemas. Nem sempre são figuras (e situações) substanciosas. O diretor Carroll parece ter economizado seu esforço para a delicadíssima e densa conversa entre a mãe vivida por Ellen Burstyn e seu filho, papel de Jay Mohr, vítima da Aids e prestes a morrer.

 
 
DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO
(Le Déclin De L'Empire Américain, Canadá - 101 min. – 1986)
Diretor: Denys Arcand
Elenco: Dorothée Berryman; Louise Portal; Pierre Curzi; Dominique Michel; Rémy Girard; Yves Jacques; Geneviève Rioux; Daniel Brière; Gabriel Arcand

Antes mesmo de títulos fundamentais e realistas como Meu Querido Companheiro (1990) serem lançados, o canadense Denys Arcand (As Invasões Bárbaras) ousava ao sugerir o aparecimento de uma estranha moléstia da qual pouco ou nada se sabia. Muito menos o cinema se manifestava sobre o tema. A rápida cena em que o personagem homossexual Claude (Yves Jacques) urina sangue era inquietante o suficiente para fazer desse filme um precursor. Mais tarde, com uma amiga, Claude anuncia sua apreensão sobre o que está por vir. O drama é apenas uma das pontas da história, em que professores universitários se juntam para preparar um jantar, enquanto suas amigas, mulheres ou namoradas tagarelam na academia. No cardápio, discussões calorosas sobre amor, política, fidelidade e, claro, sexo. Doze anos depois, o diretor abordaria claramente a aids em Amor e Restos Humanos .

 

EU AMO ESSE HOMEM
(L'HOMME QUE J'AIME), de Stéphane Giusti
França - 087 min. - 1997

A trama é clássica. Gay se interessa por rapaz confuso com sua identidade sexual, a princípio é rechaçado, mas insiste, insiste... O drama romântico de Stéphane Giusti, realizada para TV, retrata com charme e simpatia a difícil "saída do armário", a paixão num meio reconhecidamente volátil e evolui para o papo sério quando Lucas (Jean-Michel Portal), o assumido, revela ser soropositivo para o novo parceiro Martin (Marcial Di Fonzo-Bo). O cenário é Marselha, no sul da França, onde os dois protagonistas trabalham numa escola de natação. Martin surge como o novo professor e atrai o interesse de Lucas. Mas além de tímido e fechado, o moço se relaciona com uma garota (Mathilde Seigner). No rito de conhecimento de Martin, a mãe de

Lucas (Vittoria Scognamiglio), decidida e protetora, exercerá papel fundamental. O diretor Giusti aproveita a postura de fuga da doença de Lucas para mostrar o engajamento da entidade Act Up e os protestos para a liberação, pelo sistema de saúde, dos coquetéis de tratamento.

 
 
 

FIGHT BACK, FIGHT AIDS: 15 Years Of Act Up*
(Fight Back, Fight AIDS: 15 Years Of Act Up, EUA, 2002, 75 min.)
Diretor: James Wentzy

Entidade precursora e até hoje das mais influentes na luta contra a Aids, a ACT UP (Aids Coalition to Unleash Power) tem seus quinze anos de resistência relembrados nesse documentário. A realização amadora e a compilação acadêmica de imagens e discursos não tiram o fôlego da empreitada assinada por James Wentzy, ele mesmo um ativista de liderança e desde 1990 um soropositivo. Fundado em Nova York, em 1987, o grupo foi responsável pelas primeiras e barulhentas passeatas em busca de apoio, respeito e, principalmente, mudança de política de governo. Protestos como a histórica marcha de 24 de março de 1987, em Wall Street, reivindicavam tratamento de saúde digno às vítimas e liberação de medicamentos para todos os doentes. São imagens presentes no vídeo, assim como personagens que colaboraram na transformação da mentalidade vigente, caso do escritor Vito Russo.

 
FILADÉLFIA
(Philadelphia, EUA, 1993, 125min)

Diretor: Jonathan Demme
Elenco: Tom Hanks , Denzel Washington , Antonio Banderas , Jason Robards, Roberta Maxwell, Buzz Kilman, Karen Finley, Daniel Chapman, Mark Sorensen Jr., Jeffrey Williamson

Em tom melodramático e pisando em ovos, Hollywood encontrou seu jeito para abordar até então um tema no mínimo indigesto para a indústria do cinema. E como, ainda por cima, atrair o grande público reconhecidamente conservador? A saída foi chamar um ator que é uma espécie de namoradinho da América e abusar da emoção. Tom Hanks, vencedor do Oscar pelo papel, certamente dá dignidade ao advogado vítima da Aids que processa sua firma por suposto preconceito. Acredita que tenha sido demitido por ser portador do vírus. Consegue cooptar um colega de menor calibre para defendê-lo (Denzel Washington), que vem carregado de preconceitos, medos etc e terá de testar seus próprios limites. Com tantas justificativas, recalques e temores, o filme termina por cair num novelão desbragado e hoje deve ser debatido como referência ou não na representação da doença pelo cinema. À época, pelo menos, as entidades gays se incomodaram e muito com alguns preconceitos perpetrados pelo diretor Jonathan Demme.


 

KIDS
(Kids, EUA, 1995, 90min)
Diretor: Larry Clark
Elenco:Leo Fitzpatrick ; Justin Pierce ; Chloë Sevigny ; Sarah Henderson ; Rosario Dawson ; Harold Hunter ; Yakira Peguero ; Javier Nunez ; Nick Lockman ; Gerry Smith ; Lavar McBride

 

Perturbador cronista da juventude americana, Larry Clark explodiu no cinema independente americano com este impactante retrato de adolescentes envolvidos com drogas e sexo inseguro. São vários teens que, para matar o tempo ocioso numa Nova York violenta, divertem-se fumando maconha e transando sem camisinha. Até que uma personagem resolve fazer o teste do HIV e descobre-se portadora do vírus da Aids. Abalada, ela sai pelas ruas à procura do rapaz que possivelmente a infectou. Clark não é um diretor de meias-palavras. Suas imagens cruas desnudam um comportamento juvenil suicida. À época da realização, nos anos 90, provocaram polêmica a nudez dos atores adolescentes e o brutal enfoque em flerte com a realidade.

 

 

MEU QUERIDO COMPANHEIRO
(Longtime Companion, EUA, 1990, 96min)
Diretor: Norman Rene
Elenco: Stephen Caffrey ; Patrick Cassidy ; Brian Cousins ; Bruce Davison ; John Dossett ; Mark Lamos ; Dermot Mulroney ; Mary-Louise Parker ; Michael Schoeffling ; Campbell Scott


Uma festa de praia animada e liberadíssima em Fire Island, nos anos 80, é definidora para a vida de um grupo de gays nova-iorquinos. Depois dela, o estranhamento, a preocupação e finalmente o pânico dão início à era Aids nesse que é o primeiro e até hoje dos mais humanos e tocantes dramas documentais sobre a doença. Os personagens vividos por Campbell Scott e Stephen Caffrey se conhecem nos tempos de despreocupação e liberalidade para logo depois se amedrontarem com as primeiras notícias de jornal. Não passará muito tempo até que amigos próximos do casal apareçam seriamente doentes. Em questão, as dúvidas, a maneira como encarar o futuro e a importância da solidariedade. Sobre esse último aspecto, o papel de Bruce Davison, do jovem que apoia seu namorado no leito do hospital, se tornou referência do filme e paradigma para a geração.

 

NOITES FELINAS
(Les Nuits Fauves, França, 1992, 149min)
Diretor: Cyril Collard
Elenco: Cyril Collard ; Romane Bohringer

 

 

Antes desse precursor drama francês, houve a autobiografia. Bissexual e soropositivo, Cyril Collard (1957-1993) contou primeiro em livro homônimo (e lançado no Brasil) suas aventuras sexuais numa Paris soturna, revelando uma atividade promíscua quando a Aids já fazia suas vítimas. Em seguida, veio à adaptação para o cinema, a primeira na França a falar abertamente sobre a doença. Collard dirigiu a fita, assinou o roteiro em parceria e a trilha sonora e, claro, representou a si mesmo na tela como Jean. Tal esforço não se transformou necessariamente em qualidade. O filme é longo, tortuoso e mais se parece com uma auto-representação hedonista. Jean, ou Cyril demonstra uma inabalável crença pela diversidade (e pelo apetite) sexual. Nem a descoberta de que é portador do vírus HIV separa-o de seus parceiros constantes, uma atriz (Romane Bohringer) e um amante latino (Carlos López), e da busca por novas conquistas nos becos da cidade. Num reconhecimento polêmico, a academia francesa premiou o trabalho com três César (o Oscar francês), inclusive de melhor filme, três dias depois da morte de Collard.

 
O PRESENTE( The Gift), de Louise Hogarth
EUA - 062 min. - 2002

Bug chasers, gift givers, convertion party, bare backing eram expressões restritas a uma parcela da comunidade gay até o momento em que a diretora Louise Hogarth as trouxe a público nesse controverso documentário. Comecemos pelo título. The Gift, ou O Presente é o vírus HIV. Bug Chasers são aqueles parceiros que querem voluntariamente ser infectados pelo vírus e gift givers, os soropositivos e "doadores" em potencial. Para consumar a transmissão do HIV, os interessados marcam encontro, em geral por sites especializados, nas chamadas festas de conversão. Fecha-se, assim, o intrigante círculo, que o filme procura discutir a partir de um pressuposto básico desses personagens. Eles acreditam que ao disseminar a Aids e torná-la a regra, não a exceção, estarão poupando a si mesmos e a comunidade do medo da infecção e das preocupações com o sexo seguro. Uma lógica invertida graças à possibilidade atual de convivência com a doença, outro ângulo debatido na fita. Há depoimentos de soropositivos ativos, de quem se infectou deliberadamente --- o caso de um rapaz arrependido e aterrorizado --- de grupos de terapia e demais envolvidos. São vozes polêmicas que surpreendem mesmo aqueles representantes mais engajados e bem informados do universo homossexual.

 

PACIENTE ZERO
(Zero Patience, Canadá, 1993, 100min)
Direção e roteiro: John Greyson

 

Um exemplar único no universo do cinema que enfoca a Aids. O tom francamente cômico e irreverente adotado pelo diretor John Greyson não deixa dúvidas que ele quis falar de coisa séria, mas sem deprimir a platéia. Em pique de musical, a trama corre atrás da suposta primeira vítima do vírus HIV, um comissário de bordo franco-canadense que ajudou a disseminar a doença pelas saunas de São Francisco. O personagem realmente teria existido, mas na fita o Paciente Zero reaparece nos tempos atuais como um fantasma (Normand Fauteux). Disposto a rever sua fama, ele percorre os cenários mais estranhos e conhece os personagens mais estapafúrdios, da atriz Barbra Streisand e do dramaturgo Bertolt Brecht ao explorador inglês Sir Richard Francis Burton. Igualmente transplantado do século XIX, Burton prepara uma exposição sobre Aids num Museu de História Natural e é abordado pelo inesperado visitante. Machista, acabará cedendo aos encantos do fantasma...

 

RSVP
( RSVP), de Laurie Lynd - Canadá - 023 min - 1991

 


Os dolorosos momentos que se seguem para os mais próximos após a morte de uma vítima de Aids são retratados de forma poética. Sid (Daniel MacIvor) ainda se confronta com a perda do companheiro quando liga o rádio e descobre que ele fez um pedido para ouvir uma canção. Le Spectre de la Rose , uma ária da ópera Les Nuits d'Été, de Berlioz, e cantada por Jessie Norman, era o momento musical preferido pelo casal. Sid, então, liga para a irmã do namorado e esta para a mãe, conectando todos na mesma freqüência da homenagem.

 

TERRA DE SONHOS
(In América, EUA, 2004, 103 min)
Diretor: Jim Sheridan.
Elenco: Samantha Morton, Paddy Considine, Sarah Bolger, Emma Bolger, Djimon Hounsou, Randall Carlton.

 

Drama de traços autobiográficos do mesmo diretor de Em Nome do Pai, escrito em parceria com suas duas filhas. O irlandês Sheridan debruça-se sobre sua tumultuada chegada aos Estados Unidos no início dos anos 80. Apesar de não fixar a data, notam-se referências da década, como o fanatismo da criançada pelo monstrinho da fita E.T., emblemática ficção científica dirigida por Steven Spielberg em 1982. Também não é explícita a doença que acomete o personagem de Djimon Hounsou, que concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante este ano. Artista plástico, ele trava uma amizade incomum com as duas filhas (papel das adoráveis irmãs Sarah e Emma Bolger) de um casal de imigrantes irlandeses (Paddy Considine e Samantha Morton). Seu comportamento de absoluta reclusão e o triste desenrolar de seu quadro clínico sinalizam em direção a Aids, vista à época como uma brutal fatalidade.

 
 

THE DEAD BOYS CLUB
(The Dead Boy's Club)
de Mark Christopher - EUA - 025 min

Um toque de fantasia para quebrar a melancolia de um drama já vivido por muitos. Toby (Nat De Wolf) é o garoto do interior americano que vem para Manhattan encontrar o primo Packard (Erik Van Der Wilden). Este acaba de perder o companheiro, morto por complicações da Aids. Tímido e atônito com a liberalidade da comunidade gay a sua volta, Toby muda quando ganha de Packard um par de sapatos que pertenceu ao seu amante. Ao calçá-los, o garoto se transforma: melhora sua auto-estima e confiança e é transportado aos loucos anos 70 pré-era Aids. O diretor Mark Christopher iniciou carreira com esse curta-metragem e ficou conhecido por aqui pelo longa Studio 54

 

 

TUDO SOBRE MINHA MÃE
(Todo Sobre Mi Madre, Espanha / França, 1999, 101 min)
Diretor: Pedro Almodóvar.
Elenco: Cecilia Roth; Marisa Paredes; Penélope Cruz; Candela Peña; Rosa Maria Sarda; Antonia San Juan; Fernando Fernán Gomez; Toni Cantó Eloy Azorí Carlos Lozano; Fernando Guillén Cuervo; José Luis Tonijo; Juan José Otegui

 

Em Madri, Manuela (Cecilia Roth) perde o filho precocemente e parte para Barcelona a fim de encontrar o pai do garoto vinte anos depois, agora um travesti chamado Lola. A sua viagem é também um rito de passagem para um novo e desconhecido mundo, do qual faz parte, por exemplo, Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma freira grávida e portadora do vírus HIV. Bem ao seu estilo irreverente e com uma carga melodramática peculiar, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar confronta o espectador com o tema da aids sem fazer da doença um foco de especial atenção em seu cinema. É a personagem, digamos, complexa da religiosa que dará a Manuela uma esperança de reiniciar sua vida e à história um sentido de renascimento.

 

UM AMOR QUASE PERFEITO
(Le Fate Ignoranti, França / Itália; 105 min – 2001), Ferzan Ozpetek
Elenco: Marguerita Buy; Stefano Accorsi; Serra Yilmaz

 

O conhecimento de um mundo novo da médica Antonia (Margherita Buy) inclui o envolvimento com um soropositivo em estado terminal. Acaba por se tornar uma confidente do rapaz, abandonado pelo amante logo depois do aparecimento da doença. Diretor turco radicado na Itália, Ferzan Ozpetek é homossexual assumido e sabe muito bem como tratar esse universo no cenário de direita do governo de Silvio Berlusconi. Não por acaso, termina a fita com a modesta Parada Gay, em Roma, que o primeiro ministro chegou a proibir. Seu filme, em última análise, é sobre tolerância e compreensão. Idéias representadas por Antonia, que ao perder o marido num acidente descobre a traição dele não com uma mulher, mas com o sedutor feirante Michele (Stefano Accorsi).