A Mostra

Pouco mais de uma década depois da primeira seleção, Cinema Mostra Aids volta às telas em sua quarta edição. A iniciativa é mais uma vez do Grupo Pela Vidda/SP. O propósito do evento, apoiado pelo Espaço Unibanco de Cinema, pelos Programas Nacional, Estadual e Municipal de DST/Aids, dentre outros parceiros, também se mantém com a perspectiva de contribuir, por meio da produção cinematográfica, para o debate sobre a situação e os rumos da epidemia da aids.

Muita coisa mudou desde a notificação dos primeiros casos de uma doença rara que atingia homossexuais nos EUA, em 1981, até um dos mais graves problemas de saúde pública da atualidade. Hoje, mais de 32 milhões de pessoas vivem com HIV e aids no mundo. Com os avanços da medicina e da ciência, esse mal agora tem tratamento, ao menos no contexto da pequena parcela de países que consegue garantir à população infectada o acesso aos medicamentos. A informação aumentou, o preconceito diminuiu, a doença está banalizada, mas ainda persistem situações de desrespeito a direitos e à dignidade dos soropositivos.

A proposta inédita da mostra surgiu em 1997, momento em que o cinema colecionava ainda poucos títulos representativos que abordassem a aids e o viver com HIV. Isso no período mais trágico da epidemia, até meados da década de 90. A temática dos primeiros filmes recaía invariavelmente sobre o drama da descoberta do vírus, o preconceito, a solidão e a morte. Era a aids terminal, presente no pioneiro Meu Querido Companheiro, que deu lugar nas telas à primeira geração de gays atingidos pelo HIV; ou mais tarde, descoberta por Hollywood no drama Filadélfia, estrelado por Tom Hanks.

Diante do tabu na poderosa indústria cinematográfica americana, coube à produção independente - sobretudo a produção européia, em geral mais aberta e arejada - o desafio de fustigar o assunto.

Apesar de um longo período com projetos pontuais que investiram num retrato da aids, o acervo de títulos foi aos poucos aprimorando e aumentando seu escopo de gêneros. Documentários, dramas, melodramas, musicais e - impensável nos tempos mais sombrios - comédias românticas propiciam uma visão mais realista, seja por uma nota ainda cruel em alguns países seja por uma abordagem mais humanista e cotidiana das pesoas que vivem com HIV e aids.

No primeiro caso, boa parte dos exemplos nesta quarta edição da mostra tem um caráter documental e investigativo, cujo resultado pode sugerir uma nova onda de pessimismo em relação à doença. E isto não está longe da verdade, como se pode constatar em três fitas: Cinco Heróis, Ciclos da Vida - A História da Aids no Malaui ou Sensações - A História da Aids na Argentina. Em contraponto, ainda que complementares à idéia de recorrência da doença, os títulos de ficção amortecem um tanto as tintas negativas ao abordar os sobreviventes da aids pelo uso dos coquetéis.

Vale aqui apontar uma curiosidade desta atual seleção. Há vários filmes com a presença de negros, situação óbvia quando o título trata de um continente de maioria negra como a África, ou rara no caso de dramas de ficção como One Week, que sugere uma carência dessa comunidade em se ver retratada no tema.

Uma boa razão para reeditar um ciclo de filmes como esse é a possibilidade de realizar um balanço não só de há quantas anda a epidemia da aids mas também de como o cinema a encara. Nem sempre, por exemplo, a doença se apresenta o principal argumento. Por vezes aparece mais como um componente do roteiro, um elemento secundário na história de um personagem. Nesse sentido, o badaladinho diretor francês Christophe Honoré (Em Paris) maneja muito bem um painel familiar em Tudo Contra Leo - este o filho mais velho que se anuncia soropositivo - ao deixar para os olhos do caçula a incumbência de acompanhar os desdobramentos do drama junto com as descobertas típicas da pré-adolescência.

Outro bom indicador, sendo um pouco otimista, é a ocorrência de produções que se voltam para o passado com um intuito quase nostálgico, na medida em que prestam homenagem aos que se foram no mais triste período da doença. Parece ser o caso do título americano Uma Casa no Fim do Mundo, com o astro Colin Farrell. Da produção nacional, um belo tributo ao talento que se perdeu na trágica epidemia está em Três Irmãos de Sangue, sobre Betinho, Henfil e Chico Mário, todos hemofílicos infectados por transfusão.

Em outros casos pinçados na programação, torna-se alentador saber que o cinema tem demonstrado que viver com HIV já é uma situação corriqueira. Ao fazer parte do cotidiano de uma sociedade, o tema deve ser tratado com naturalidade e humanidade. Não é mais a aids que determina o destino das pessoas e sim estas que aprenderam a conviver e a enfrentar a doença, apesar das injustiças e das desigualdades no acesso a tratamento e prevenção.

Há documentários que denunciam crises e omissões; filmes que trazem dilemas éticos, crises existencias e abordagens polêmicas; curtas e longas metragens que revelam personagens movidos pela culpa, pelo medo, pela indiferença, pelas fraquezas humanas, mas também pela garra, esperança e alegria de viver. São jovens e adolescentes (nos dois documentários dirigidos por Mauro Dahmer, para a MTV), gays (em A Viagem, e em Sem Garantia de Validade), prostitutas (em Princesas), atores pornôs, comerciantes de sangue e freiras (em Unidos pelo Sangue), um paciente terminal (em O Evento) dentre tantos personagens que compõem a seleção desta mosta. A mostra do Grupo Pela Vidda/SP só é possível graças ao envolvimento de vários parceiros. Na sua proposta itinerante tem sido realizada em outras cidades, além de São Paulo, com o apoio de instituições locais e tem servido de inspiração para eventos similares, que, por reconhecimento e respeito, preservam a menção ao projeto original.

Cinema Mostra Aids ganha relevância no momento em que a aids frequenta cada vez menos o noticiário e só está presente em datas especiais ou em campanhas sazonais do governo. É notório o desaparecimento da doença do centro dos debates, tornando-se um tema cada vez mais circunscrito às comunidades afetadas, aos ativistas, aos técnicos de programas governamentais e profissionais dos serviços de saúde especializados. Um evento de apelo cultural para falar sobre aids surge, desta forma, como uma tentativa de ampliar a discussão para além dos circuitos médico e militante. O cinema, assim como a sociedade, continua sendo desafiado a descobrir as novas faces da epidemia da aids e a encontrar novas formas de enfrentá-la.

O evento contou também com o apoio de jornalistas especializados em cinema, distribuidoras de filmes, tradutores e colaboradores voluntários do Grupo Pela Vidda/SP.