A perda de gordura causada por alguns medicamentos contra o HIV persiste a longo prazo

A perda de gordura causada por alguns fármacos contra o HIV parece persistir a longo prazo, mesmo após a descontinuação dos medicamentos que a provocam, segundo investigadores dos EUA, num estudo publicado na edição online da AIDS.

Os investigadores do estudo prospectivo Fat Redistribution and Metabolic Change in HIV Infection (FRAM – Redistribuição de Gordura e Alterações Metabólicas na Infecção pelo HIV) descobriram que existem diferenças significativas evidentes na distribuição da gordura entre indivíduos soropositivos para o HIV e soronegativos no braço de controlo e que persistiam durante os cinco anos de duração do estudo.

A interrupção de d4T (estavudina), o fármaco para o HIV mais associado a perda de gordura, foi relacionada com ganhos modestos de gordura nos membros.

Pouco depois de ser introduzida, a terapêutica de combinação antirretroviral foi associada a alterações da distribuição da gordura corporal e alterações metabólicas, relacionadas com o risco a longo prazo de doença cardiovascular. Esta síndrome de efeitos secundários é denominada de lipodistrofia.

O aumento de gordura no abdomen (adiposidade visceral) e perda de gordura dos membros e rosto (lipoatrofia) foram observados em vários pacientes. Originalmente pensava-se que os inibidores da protease (IP) eram a causa, mas tornou-se evidente que a maior causa de perda de gordura estava relacionada com toxicidade mitocondrial causada por alguns inibidores da transcriptase reversa dos nucleosídeos (INTR), especialmente o d4T e - em menor extensão – o AZT (zidovudina) .

Interromper ou alterar o tratamento para o HIV tornou-se numa estratégia estabelecida para tratar a lipodistrofia. Foram conduzidas diversas investigações sobre lipodistrofia, sendo um dos maiores projetos os estudo FRAM.

Neste estudo, os investigadores usaram a Ressonância Magnética para comparar a distribuição corporal da gordura em soropositivos para o HIV e pessoas soronegativas. A sua análise inicial descobriu que as pessoas infectadas tinham níveis significativamente mais baixos de gordura subcutânea que os seus pares soronegativos.

Os pesquisadores queriam observar se estas diferenças se mantinham a longo prazo, tendo repetido a sua análise depois de cinco anos de acompanhamento.

A população do estudo incluía 477 infectados pelo HIV e 211 indivíduos soronegativos. As suas características eram semelhantes, porém os soropositivos tinham mais probabilidades de serem do sexo masculino 68% vs 53%).

Nesta primeira análise e na que foi feita cinco anos depois, os soropositivos tinham níveis significativamente mais baixos de gordura em todas as áreas do corpo que foram medidas.

Os pesquisadores descobriram que os infectados pelo HIV tinham mais probabilidade do que os soronegativos de perder tanto a gordura subcutânea (35% vs 27%) como a gordura visceral (17% vs 5%).

No início do estudo, 48% dos pacientes soropositivos tinham perda de gordura, o que aumentou para 53% depois dos cinco anos. Dos soropositivos diagnosticados com lipoatrofia no início do estudo, 82% ainda tinham perda de gordura cinco anos depois.

A análise no início do estudo demonstrou que a média do nível de gordura dos membros dos homens soropositivos era 67% da observada no grupo de controle. Esta diferença persistiu a longo prazo, com os homens soropositivos para o HIV tendo apenas dois terços (65%) da gordura nos membros em comparação com os seus pares soronegativos.

O nível de gordura nos membros também era baixo em mulheres soropositivas para o HIV tanto na avaliação inicial como na de seguimento (83% e 77%).

Descontinuar o tratamento com d4T, o fármaco mais associado à perda de gordura, teve pouco impacto a longo prazo no aumento de gordura nos membros. Os doentes que experimentaram esta estratégia tiveram um aumento anual de gordura nas pernas de apenas 1%. “Do mesmo modo”, afirmam os pesquisadores, “foi associado pouco aumento com a descontinuação de AZT ou outros fármacos antirretrovirais.”

Eles concluem que “não há nenhuma recuperação significativa da lipoatrofia quando se comparam as pessoas infectadas pelo HIV com o grupo de controle.”

Acrescentam ainda “estes dados devem ser considerados quando se estudarem os potenciais mecanismos subjacentes à lipodistrofia associada ao HIV. Continua por determinar se houve uma destruição das células adiposas e precursoras... ou se outros fatores continuam contribuindo para a persistência da lipoatrofia na infecção pelo HIV.”

Referência: GRUNFELD C. et al. Regional adipose tissue measured by MRI over 5 years in HIV-infected and control participants indicates persistence of HIV-associated lipoatrophy. AIDS, vol. 24, nº 11, p. 1717-1726, July 17, 2010. DOI: 10. 1097/QAD.0b013e32833ac7a2. Para acessar o abstract deste artigo, clique aqui.

Voltar