É preciso melhorar a adesão ao tratamento dos soropositivos

Para promover as ações de adesão ao tratamento, o Programa Nacional de DST/Aids (Ministério da Saúde) lançou o Manual de adesão ao tratamento para pessoas vivendo com HIV e Aids. Com objetivo semelhante, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) preparou o Manual de boas práticas de adesão no HIV/Aids

Em sua segunda edição, o manual da SBI pretende auxiliar os profissionais de saúde que prestam assistência direta às pessoas que vivem com HIV e aids a compreenderem as variáveis que estão envolvidas no processo de adesão ao tratamento, assim como ajudá-los a encontrar a melhor alternativa de superação das eventuais barreiras para a  adesão do paciente.

O tratamento com medicamentos antirretrovirais comprovadamente representa melhoria na qualidade de vida dos pacientes. Desde que o diagnóstico não seja tardio, o tratamento faz com que a infecção pelo HIV passe a ser vista como uma doença de caráter crônico. Porém, para garantir o sucesso da terapia antirretroviral, é necessário que haja uma adesão total às recomendações e ao regime desse tipo de tratamento, com constante orientação médica.

A baixa adesão traz como consequência a diminuição da eficácia dos medicamentos, a piora clínica do paciente, além da disseminação de cepas (variantes do vírus modificado) resistentes do vírus, o que reduz futuras opções de tratamento tanto para os pacientes não aderentes como para os indivíduos que venham a se infectar pelas cepas resistentes. Essa realidade impõe a todas as pessoas envolvidas a busca por uma melhor estratégia que permita a introdução dos medicamentos na rotina do paciente, ajudando-o a superar as dificuldades e minimizando os prejuízos possíveis. O manual com boas práticas discute os aspectos envolvidos no uso dos antirretrovirais e apresenta diferentes enfoques e possibilidades de  intervenção.

Maior adesão, melhor tratamento

O primeiro tópico abordado no manual da SBI se refere à adesão, sua importância e estratégias de ação para facilitá-la e entendê-la como eixo fundamental do sucesso na terapia. A compreensão do paciente sobre sua doença; a interação do HIV com o sistema imunológico e os medicamentos; os conhecimentos sobre exames e procedimentos para acompanhamento da terapia; o cenário clínico e a manifestação da aids no organismo; e a complexidade do tratamento são aspectos que devem ser relevados no momento de adesão.

Algumas situações especiais interferem diretamente nos rumos do  tratamento das pessoas portadoras do HIV. O início ou troca da terapia antirretroviral, o histórico de abandono do tratamento, o esquecimento das doses, as co-infecções (como a hepatite C) e os grupos de indivíduos diferenciados (como crianças, idosos, gestantes) são condições que precisam de outro olhar e direcionamento para a adoção e continuidade da terapia. Em crianças, por exemplo, o sabor dos medicamentos é um fator que dificulta sua aceitação.

Efeitos adversos

Outro ponto-chave que interfere no tratamento são os efeitos colaterais provocados pelos antirretrovirais. Eles são muitos e variam de acordo com o paciente, que pode apresentar, por exemplo, reações na pele, no fígado, no metabolismo e sintomas gastrointestinais. A terapia contra a aids também tem sido associada ao aumento dos riscos de problemas no coração, quadros de obesidade central como a lipodistrofia (acúmulo de gordura em certas regiõesdo corpo), resistência à insulina  e diabetes, além de alterações do metabolismo ósseo (como a osteoporose), entre outras.

Essas alterações precisam ser consideradas visto que abalam não só a estrutura física como também a autoestima dos pacientes e ameaçam o uso regular dos medicamentos. O número de comprimidos envolvidos, os diferentes horários de ingestão, as restrições na alimentação são outros obstáculos na terapia. Porém, a necessidade de controle e rigidez
na prescrição médica é extremamente importante para o êxito da terapia. No período de adaptação, cuidados especiais devem ser dados aos pacientes que possuem outras doenças associadas. Muitas vezes, os soropositivos são acometidos por outras doenças, caracterizando a co-infecção e um novo desafio no tratamento. A publicação reúne também estratégias específicas para facilitar o tratamento da aids em grupos especiais como, por exemplo, no caso de gestantes, idosos, crianças e populações vulneráveis. O manual da SBI de boas práticas indica algumas ferramentas que contribuem para a adesão ao tratamento:

Caixas para remédios – de preferência as que tenham divisórias internas para os dias e subdivisórias para as doses;
• Dispositivos eletrônicos: bips, alarmes e relógios de pulso;
•  Quadros com demonstrativos de comprimidos e horários;
•  Calendários ou agendas que ajudam o paciente a desenvolver bons hábitos em relação à sua medicação, mas também serve para a organização de encontros e outros
compromissos;
• Materiais adaptados para atender às necessidades de adesão decada paciente (por exemplo, embalagens coloridas para diferenciar cada medicamento);
Diário da medicação para registrar quando tomou ou não os medicamentos e registrar os efeitos colaterais.

Abordagem consentida do paciente

O Manual de adesão ao tratamento para pessoas vivendo com HIV e AIDS, lançado pelo Ministério da Saúde, faz parte das ações da campanha Prevenção PositHIVa e aborda questões como atenção integral e adesão em HIV e aids, eventos adversos e interações, manejo e prevenção, ações e estratégias em adesão, além das fases do tratamento: início, manutenção, troca e abandono da terapia antirretroviral.

Além desses pontos, o manual apresenta situações que merecem especial atenção, ligadas ao maior risco de não aderir ao tratamento, exemplificando atividades que podem minimizar possíveis dificuldades. Um dos destaques do manual do Ministério da Saúde é a abordagem consentida em casos de abandono do tratamento ou de não retorno ao serviço de saúde para consulta e exames. Trata-se do contato que o serviço de saúde faz com o paciente, mediante sua autorização prévia, por meio da assinatura de um Termo Consentimento Livre e Esclarecido.

No termo, o usuário deve dizer se aceita um eventual contato e de que forma prefere ser contatado: por telefone, carta, meio eletrônico (email),visita domiciliar ou qualquer outra forma de comunicação. O termo deve ser assinado em duas vias, ficando uma com o paciente (ou Abordagem consentida do paciente com seu responsável) e a outra na unidade de saúde, anexada ao prontuário médico.

É muito importante que o paciente mantenha os seus dados pessoais atualizados – endereço e telefone – e registre sempre informações sobre mudanças de domicílio ou de unidade de saúde onde faz o tratamento.

Por sua vez, os profissionais do serviço devem tentar verificar na lista mensal da farmácia de dispensação dos medicamentos as pessoas que não retiraram seus medicamentos do mês. Outra providência é identificar no prontuário do paciente a última data da consulta médica.Confrontando as duas informações  (da farmácia e do prontuário), se caracterizado abandono do tratamento, o paciente deve ser contato, desde que ele tenha previamente autorizado.

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