Kit pré-exposição é uma ameaça grave, alerta o infectologista sobre uso de anti-retrovirais para evitar infecção do HIV

Nem "bala", nem "doce", nem "pó". A nova moda agora em festas e raves é tomar anti-retroviral. Na entrada do clube ou da casa noturna, jovens vendem um estojo contendo um comprimido de Viagra, um de ecstasy e um do remédio de combate ao HIV.

Alterado pelo efeito da droga alucinógena, estimulado pela pílula azul e seguro de uma pseudo-proteção contra a Aids, o "cliente" se sente preparado para curtir tudo que a noite tem para oferecer, sem usar preservativo. Ele só esquece de colocar na conta da diversão as doenças graves contraídas e retransmitidas durante a "brincadeira".

O quadro assustador foi denunciado pelo presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvencio Furtado, que ouviu relatos preocupantes sobre a prática. “O kit pré-exposição é uma ameaça grave. O remédio não é totalmente eficaz. O jovem se prepara para perder o controle da atividade sexual e pode contrair outras doenças sexualmente transmissíveis, como sífilis e Hepatites B e C, sem falar no próprio HIV.”

Prática recente

A polícia ainda não é familiar com a ocorrência. O delegado Victor dos Santos, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, disse nunca ter tido conhecimento da venda associada entre drogas e anti-retrovirais. Alguns usam ainda o coquetel como se fosse pílula do dia seguinte.

Está previsto pelo Ministério da Saúde que pessoas que tiveram relações desprotegidas tenham acesso aos anti-retrovirais, mas os remédios precisam de prescrição para compra, acompanhamento médico e devem ser tomados por um mês, e não por poucos dias, como alguns fazem.

“Se a pessoa se contaminou, tomar um dia ou dois de coquetel faz com que as drogas eliminem os vírus sensíveis a elas e os deixem resistentes. Logo, vai se desenvolver uma infecção mais grave e difícil de tratar”, alerta Murilo Melo, diretor da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica.

“Isso tem um risco para a população em geral porque vírus mais resistentes são espalhados. Além disso, como a disponibilidade de drogas é restrita, sobraria pouca medicação para os comprovadamente infectados, gerando um problema grave saúde pública”, completa o patologista.

Falsa proteção

Juvencio Furtado acrescenta que há pessoas que acham que, por estarem tomando coquetel por um mês, podem se expor ao HIV. Mas elas não estão totalmente protegidas e há vírus resistentes.

“Os avanços não podem dar a sensação de que tomar remédio é a cura. A pessoa infectada vai usar essas drogas pela vida inteira, com efeitos colaterais graves, como diabetes, aumento do colesterol, triglicerídeos, seis vezes mais risco de doenças cardíacas, alterações na distribuição da gordura no corpo”, detalha. “Apesar do progresso, nada é mais seguro do que usar a camisinha. O método mais simples é o mais eficaz.”

Eliana Gutierrez, diretora da casa da Aids do Hospital das Clínicas (HC) pondera que, embora a prática não seja a melhor alternativa, o principal é evitar o contágio. “Não tem como adotar uma postura punitiva, muito moralista e pouco pragmática”, avalia.
“Eu dou o remédio a pessoas nessa situação, quando me pedem, mas isso definitivamente não deve ser a conduta padrão entre a população”, defende Eliana. “Eles poderão ter náusea, vômito, anemia e tonteira, mais fortes no caso de pessoas que usam as drogas como profilaxia.”

Há 600 mil pessoas com HIV no Brasil. A expectativa é que a Aids vire uma doença crônica, com a qual se possa conviver por muitos anos. Desde o início da terapia anti-retroviral, já existem pacientes há 20 anos em tratamento. Conforme o tempo passa, a sobrevida aumenta cada vez mais. Mas muito ainda será descoberto sobre o mal.

A dona-de-casa, F.F. V, 52 anos, teve o HIV identificado há 13 anos e nunca tomou remédios. Segundo ela, seu caso foi considerado um mistério pelos acadêmicos do HC. “Os médicos me dizem que não preciso de medicação, mas continuo em acompanhamento. O HIV há anos não aparece nos testes sangüíneos”, conta.

Testes modernos e fim precoce do tratamento

Outros problemas ligados ao avanço na terapia e no diagnóstico preocupam médicos. Testes mais modernos para detectar o HIV são feitos sem a comprovação mais segura do exame sangüíneo. Além disso, muitos deixam de tomar o remédio quando a carga viral fica imperceptível, iludidos pela esperança de que o vírus "sumiu" depois de anos de terapia.

O teste de saliva, aprovado no Brasil semana passada, é baseado na busca por anticorpos anti-HIV. A saliva é coletada numa espátula, colocada num set descartável e revelada numa solução à parte. Dependendo da cor da mistura, é possível saber o resultado em alguns minutos.

“A Secretaria de Vigilância em Saúde determinou que são necessários dois testes diferentes para chegar a um diagnóstico seguro do HIV. Logo, não adianta fazer só o de saliva. Se o exame der negativo, é preciso buscar a comprovação com o sangüíneo”, explica o patologista Murilo Melo. “O teste de saliva é para ser feito por profissionais em laboratório, não é tão simples como um teste de gravidez.”

Triagem

O exame foi desenvolvido nos EUA sem a finalidade diagnóstica, e sim para fazer uma triagem, segundo Melo. É importante para quem quer resposta rápida, tem receio de tomar injeção ou para locais sem acesso a laboratórios. Mulheres grávidas também poderiam fazê-lo antes do parto para detectar riscos para o bebê.

Para a infectologista Eliana Gutierrez, a aprovação do teste traz mais benefícios que riscos, já que a maior dificuldade no Brasil é que muitos não fazem os testes. Mais de 100 mil brasileiros têm HIV e não sabem.

“Além disso, uma parte grande da população faz o exame, mas não busca o resultado, com medo”, explica Eliana. “O mais importante é que mais gente saiba o diagnóstico e seja aconselhado. Quem sabe que é soropositivo se comporta diferente, isso é comprovado.”

Outro erro comum é a interrupção do tratamento depois de exames sanguíneos em que o vírus não é detectado. Apesar de não aparecer no teste, o HIV está lá. Se o paciente parar de tomar as drogas, o vírus volta a se replicar, se torna mais resistente e a imunidade do paciente cai. Segundo Eliana, em duas semanas a replicação já está altíssima.

“Esse é o princípio da terapia: que a carga viral fique indetectável, com uma multiplicação lenta, e que as células imunológicas CD4 subam a patamares normais”, explica Juvencio Furtado.“Mas isso não significa que é para parar de tomar remédios”, acrescenta o infectologista.

Fonte: Jornal do Brasil
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