Na TARV com dose única diária, as consequências de uma fraca adesão podem ser mais graves

Embora os esquemas terapêuticos com uma dose única diária possam facilitar a adesão ao tratamento antirretroviral de pessoas vivendo com HIV/Aids, se o paciente falhar uma dose as consequências clínicas são mais graves do que se falhasse uma das doses de um regime com duas doses diárias. Tracy Glass reportou estas conclusões da Coorte Suíça para o HIV na Quinta Conferência Internacional sobre Adesão ao Tratamento para o HIV, realizada recentemente em Miami, Estados Unidos.

Nos últimos anos, tem sido feito um grande esforço para tornar a terapêutica antirretroviral mais tolerável e mais fácil de tomar, em particular com o desenvolvimento de terapias com uma dose única diária. Os regimes de tratamento constituídos por menos doses geralmente tornam a adesão mais fácil.

Entre 2003 e 2009, foram recrutados, para o estudo na Suíça, pacientes que iniciavam pela primeira vez terapêutica para o HIV. Mediu-se a adesão com base na auto-reportagem de doses falhadas no último mês. Os pesquisadores avaliaram a associação entre as doses falhadas e o aumento da carga viral e morte.

Foi recrutado para o estudo um total de 2410 indivíduos, que foram acompanhados em média 2,7 anos. Em cerca de um terço das entrevistas (30%), os pacientes reportaram ter falhado uma ou mais doses da terapia antirretroviral. A carga viral subiu para níveis detectáveis em 8% dos doentes e 3% dos indivíduos faleceram.

Para os pacientes que estavam em tratamento com uma dose única, qualquer dose falhada aumentava o risco de um aumento da carga viral. O risco aumentou com o número de doses falhadas (uma dose falhada, rácio de risco (RR) = 5,46; IC 95%, 1,69 até 17,67; duas doses falhadas, RR = 6,87; IC 95%, 1,07 até 44,01; três ou mais doses falhadas, RR = 9,26; IC 95%, 2,26 até 37,99).

Além disso, os pacientes que estavam sob tratamento para o HIV com uma dose única diária e que reportaram ter falhado três ou mais doses tinham um risco significativamente mais elevado de morte (RR = 2,90; IC 95%, 1,09 até 7,72).

Por outro lado, para os pacientes sob terapêutica com duas tomadas diárias, as doses falhadas não tinham consequências tão graves. Não se constatou uma relação estatisticamente significativa entre as doses falhadas e o risco de aumento da carga viral ou o aumento do risco de morte.

No entanto, durante as perguntas e respostas, um membro da audiência pediu mais esclarecimentos sob quais os regimes de dose única em que estavam os participantes do estudo. Sugeriu que era possível que os médicos estivessem prescrevendo medicamentos cuja dose recomendada era duas vezes por dia, mas que por vezes eram prescritos para uma ingestão única ao dia, quando os pacientes pediam regimes mais simples. O problema é que estes medicamentos não são ativos no organismo durante tempo suficiente para permitir uma falha na adesão.

Se por um lado, os pesquisadores não conseguiram esclarecer a natureza destes esquemas terapêuticos, Tracy Glass confirmou que os dados foram também analisados para verificar se o risco destas ocorrências variou dependendo de o regime de tratamento ser constituído por um inibidor da transcriptase reversa não-nucleosido, um inibidor da protease potenciado ou um inibidor da protease não potenciado. Não foi constatada qualquer variação.

Em conclusão, Tracy Glass disse que acreditava que doses falhadas em regimes de duas tomas diárias não levavam a consequências clínicas tão graves como as provocadas por doses falhadas em regimes de uma única dose diária. Advertiu que regimes de uma dose única diária não são necessariamente os melhores para todos os pacientes.

Referência: GLASS T. et al. Are once daily regimens really the magic bullet? Fifth International Conference on HIV Treatment Adherence, abstract 62223, Miami, 2010.

Fonte: NAM / Aidsmap
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