No Brasil, acesso ao tratamento é tardio para mais de 40% dos pacientes

Por Cristiane Barbieri (*)

Para grande parcela das pessoas que vivem com HIV no Brasil o início do tratamento ainda é tardio, conforme os resultados do relatório “UNGASS: Resposta Brasileira à Epidemia de Aids 2005-2007”, divulgado no início de 2008 pelo Ministério da Saúde. Mesmo com a disponibilidade dos medicamentos anti-retrovirais no Sistema Único de Saúde (SUS), o documento demonstrou que 43,7% dos pacientes começaram o tratamento tardiamente, com deficiência imunológica ou quadro clínico de sintomas da aids.

Enviado à Assembléia Geral das Nações Unidas em HIV/Aids (UNGASS), o relatório é fruto da “Declaração de Compromisso sobre HIV/Aids”, acordada pelo Brasil e mais 189 países em 2001. A elaboração do documento contou com a participação de representantes do governo, da sociedade civil, de universidades e de organismos internacionais. Os dados relatados levaram em consideração a descrição e análise da situação atual da epidemia de HIV/aids no Brasil.

A seguir Cadernos Pela Vidda destaca as principais conclusões do relatório relacionadas à situação do tratamento da aids no Brasil.

  • Em 2006, o Ministério da Saúde estimava que 220 mil pacientes (acima de 15 anos de idade) estavam sendo acompanhados nos serviços públicos de saúde de todo o país; o que equivalia a 36,67% da estimativa de 600 mil pessoas infectadas pelo HIV no Brasil (0,6% da população entre 15 e 49 anos). 
     
  • Deste universo de 220 mil pacientes em tratamento, 187,2 mil (83,8%) estavam sendo tratados por medicamentos anti-retrovirais. O número de novos pacientes acompanhados nos serviços de saúde, entre os anos de 2003 e 2006, apresentou uma taxa de crescimento de 38,73%. 
     
  • Tem crescido o número de novos pacientes: em média 35 mil pessoas vivendo com HIV são incorporadas anualmente ao tratamento oferecido pelo SUS.
     
  • Para grande parcela das pessoas vivendo com HIV o início do tratamento tem ocorrido já com o sistema imunológico bastante deficitário ou com a presença de doenças oportunistas associadas à aids. 
     
  • Entre os anos de 2003 e 2006, 43,7%, dos pacientes ( mais de 50 mil pessoas) chegaram tardiamente aos serviços para iniciar o tratamento.
     
  • Entre os pacientes que chegaram aos serviços com deficiência imunológica e com doenças oportunistas, 64,8% possuíam contagem de linfócitos T-CD4 inferior a 200 células/mm3, sendo que 39% possuem menos de 100 células/mm3. 
     
  • Entre os indivíduos que iniciaram o tratamento tardiamente, 36,6% haviam morrido após quatro anos de seguimento. 
     
  • A maior probabilidade de morrer é das pessoas que apresentaram contagem de CD4 inferior a 100 células/mm3, sendo que 13,1% desses indivíduos morrem antes de completarem 12 meses de tratamento e 22,1% morrem antes do quarto ano de seguimento. 
     
  • Os homens e os mais velhos são aqueles que chegam mais tardiamente aos serviços. Mulheres e jovens iniciam em momentos mais adequados. Nas Regiões Norte e Centro Oeste, e nos municípios menores, com menos de 500 mil habitantes, estão as maiores taxas de tratamento tardio. 
     
  • A conjuntura mais grave, ressaltada pelo relatório, demonstra que os idosos com mais de 60 anos, apresentaram maior probabilidade de chegar tardiamente aos serviços na ordem de, aproximadamente, sete vezes se comparados àqueles com idade entre 15 e 19 anos.
     
  • Dentre as pessoas vivendo com HIV que iniciaram o tratamento no momento oportuno, 99,1% permanecem vivos após 12 meses de seguimento nos serviços. Após quatro anos 96,9% permanecem vivos.
     
  • O acesso aos serviços de saúde no momento certo, com contagem de células CD4 maior que 200, está relacionado às reduções dos riscos de adoecimento e de morte do paciente, redução dos custos do sistema de saúde com o tratamento e redução das taxas de transmissão da doença, devido a maior probabilidade de adesão às práticas seguras e diminuição de carga viral.
     
  • Desde o início dos anos 2000 a redução da taxas de adoecimento e de morte tem apresentado reduções pouco significativas. Isso pode ser conseqüência das desigualdades sociais e regionais e das deficiências do sistema de saúde brasileiro. 
     
  • Dentre os fatores que influenciam a procura tardia pelo tratamento está a dificuldade de acesso à testagem anti-HIV; o estigma e a discriminação que cercam os portadores de HIV; as desigualdades sociais e os níveis de miséria e pobreza que atingem a população brasileira.
     
  • Para combater a realidade do diagnóstico tardio, o Ministério da Saúde teria que ampliar o acesso aos testes rápidos, que possibilitam o diagnóstico imediato. De acordo com os índices apresentados, os exames desse tipo passaram de 510 mil, em 2005, para mais de um milhão em 2007, mas este número ainda não é suficiente.
     
  • O desenvolvimento de estratégias de comunicação, a exemplo da campanha “Fique Sabendo” também é outro caminho que deve ser adotado, para o esclarecimento da população sobre a importância do diagnóstico precoce e estímulo à realização do teste anti-HIV.

Fontes: Além de relatórios parciais e do relatório UNGASS, foram consultadas como fontes complementares informações veiculadas pelo Programa Nacional de DST/Aids e pela Agência de Notícias da Aids.

(*) A autora é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Mackenzie e voluntária do Grupo Pela Vidda/SP.

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