Pesquisa da UFMG revela que portadores do HIV/Aids têm baixa adesão ao tratamento

Apesar de o mundo elogiar o modelo brasileiro de garantia de acesso gratuito e universal ao medicamento para o portador de HIV, o tratamento desses pacientes ainda enfrenta desafios. O uso de antirretrovirais é a maior garantia do infectado ter qualidade de vida, mas os remédios não têm sido tomados regularmente, por motivos que vão da falta de interesse à estrutura insuficiente de apoio aos contaminados.

Em Belo Horizonte, o índice de pacientes que abandonam o tratamento chega a 28%. O mais preocupante é que o número acompanha uma tendência nacional. Os dados são da dissertação de mestrado Monitoramento da Adesão ao Tratamento antirretroviral no Brasil: um urgente desafio, do infectologista Gustavo Machado Rocha, defendida em abril deste ano na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e divulgada ontem pela universidade.

O pesquisador acompanhou 288 pacientes soropositivos que começavam a usar o coquetel, de 2001 a 2003, nos hospitais Eduardo de Menezes, da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), e no Ambulatório Orestes Diniz do Hospital das Clínicas (HC/UFMG). Deste total, 28% desistiram do tratamento já no primeiro ano e cerca de um terço tomou menos de 95% da quantidade de medicamento necessária. "A pesquisa atuou em três frentes: autorrelato dos pacientes, registros de dados de distribuição de remédios das duas unidades e prontuários médicos", enumera Gustavo.

Os prontuários revelaram que 23% dos 288 dos doentes não aderiram ao tratamento, nada menos do que 32% declararam não seguir corretamente as prescrições de seus médicos, o que pode ser comprovado no dados das farmácias e ambulatórios, cujos registros apontaram que 47% dos soropositivos não reativaram a medicação com a regularidade necessária, e 28% abandonaram o coquetel logo no primeiro ano de uso.

"Isso é um problema sério de saúde pública. Nessa história, não podemos responsabilizar apenas os pacientes, mas o sistema de saúde e até mesmo os profissionais da rede", afirma Gustavo, ressaltando que os motivos encontrados pelo estudo são muitos. "Tem a questão da baixa renda e escolaridade que acabam causando impactos na forma como a pessoa encara o tratamento. Há aqueles que são usuários de droga e não se importam em se medicar. Há também aqueles que não contam com o apoio da família".

De acordo com ele, foi observado que aqueles que tomam a medicação há mais tempo tendem a diminuir o seu uso. "Eles começam a se sentir bem e apostam que não precisam mais dos comprimidos", diz. Em relação aos serviços de saúde, a pesquisa aponta que a baixa adesão pode ser causada pela desestrutura do sistema. "No interior, os serviços de saúde são precários. O Sistema Único de Saúde (SUS) está sobrecarregado, assim como os médicos. Um paciente que chega e demora a ser atendido fica sem estímulos."

Estima-se que no Brasil há 600 mil infectados pelo vírus, dos quais 180 mil estão em tratamento. De acordo com Gustavo Rocha, aproximadamente 60 mil pacientes podem estar fazendo uso irregular dos antirretrovirais. "Para esse trabalho, comparamos os dados com 13 estudos de âmbito nacional. E a média de não adesão aos antiretrovirais é de 34%."

A solução apontada pela pesquisa para aumentar a adesão aos antirretrovirais é o monitoramento do paciente. "Estamos elaborando um projeto nacional que pretende fazer esse tipo de serviço. A ideia é um simples questionário para o soropositivo responder quando for ao consultório médico, na tela do computador. Isso será implantado e facilitará o acompanhamento das equipes médicas com o enfermo", aposta. A dissertação do infectologista compõe o Projeto Atar, estudo prospectivo de adesão ao tratamento antirretroviral em indivíduos infectados pelo HIV/Aids, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisas em Epidemiologia e Avaliação em Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG.

Pacientes correm risco

"Se não tomasse o medicamento, não estaria viva", conta A. C. L, de 49 anos, que há 13 anos é soropositiva e nunca deixou de se medicar, mesmo enfrentando uma das piores reações pelo uso dos remédios: a lipodistrofia (alterações na massa corpórea). Especialistas garantem que os medicamentos são essenciais para a qualidade de vida de um contaminado pelo vírus HIV. De acordo com o infectologista e pesquisador Gustavo Machado Rocha, aquele que para de tomar os comprimidos pode desenvolver complicações, ter infecções e morrer.

A pessoa que adere ao tratamento terá tempo de vida semelhante ao de uma não infectada, ao passo que as que não aderiram certamente desenvolverão doenças relacionadas à Aids, com o risco de morrer em poucos anos. Isso, A.C.L viu de perto. Na semana passada, um vizinho dela, portador do vírus, faleceu sem nunca ter tomado os comprimidos. "Ele foi ficando muito doente e morreu. Falei com ele sobre o tratamento, mas ele se recusava. Ele já tinha perdido a esposa e outros parentes também infectados pela doença, que não quiseram se tratar", conta, destacando que desde que descobriu ser soropositivo, não largou os remédios.

"Na época, cheguei a tomar 38 comprimidos por dia. Tive lipodistrofia no rosto e, por causa disso, fiquei 5 anos sem sair de casa. Mas acreditei no coquetel como forma de prolongar a minha a vida e a qualidade dela", diz, contando que recentemente se casou e está "bem demais". "Tenho uma vida saudável. Procuro me manter sempre em atividade, com boa alimentação e exercícios físicos."

Na opinião do presidente da Organização Não Governamental (ONG) Vhiver, Valdecir Fernandes Buzon, além dos medicamentos, a qualidade de vida do soropositivo vai depender da boa alimentação, de acompanhamento psicológico, atividades que recuperem a autoestima e, principalmente, exercícios físicos. "Os remédios causam a lipodistrofia, que são as graves mudanças de gordura no corpo. O paciente fica com braços finos e se sente feio. Por isso, a academia é essencial para a vida de um infectado pelo vírus. Além disso, é preciso apoio, promoção e inserção social dessas pessoas", diz, acrescentando que por mês 9 mil soropositivos são tratados na ONG, que oferece uma academia gratuita e referência no Brasil para os contaminado pelo vírus.

Fonte: Estado de Minas / Agência de Notícias da Aids
Voltar