Pesquisa demonstra que a elevada adesão ao tratamento para o HIV é alcançável a longo prazo

De acordo com relatório de pesquisadores do Reino Unido, apresentado na edição online da revista AIDS, soropositivos submetidos à terapia antirretroviral (TARV) apresentam níveis de adesão mais altos e melhorias a longo prazo. Um estudo, que acompanhou mais de 2 mil pacientes por até 9 anos, demonstrou que não apenas a maioria dos pacientes manteve a adesão à TARV, mas tambémque a possibilidade de um paciente manter a adesão aumentou cerca de 2% ao ano.

“Estas conclusões encorajadoras têm implicações na nossa compreensão sobre a probabilidade de os pacientes conseguirem manter níveis de adesão suficientes a longo prazo”, comentam os pesquisadores do London´s Royal Free Hospital. O tratamento com antirretrovirais combinados pode, significativamente, prolongar o prognóstico das pessoas que vivem com HIV. O tratamento atua na inibição da replicação do HIV e o objetivo da terapêutica é o de alcançar carga viral indetectável (abaixo das 50 cópias/ml).

Níveis elevados de adesão (pelo menos 95%) são necessários para alcançar e manter carga viral indetectável. Níveis reduzidos de adesão têm sido associados ao aumento da carga viral, ao surgimento de estirpes resistentes de HIV, à descida na contagem de células CD4 e ao risco aumentado de doença e, mesmo, de morte.

Algumas pesquisas sugerem que os níveis de adesão ao tratamento do HIV diminuem quanto mais tempo o paciente estiver em tratamento. Contudo, estes estudos têm sido pequenos e com um período de acompanhamento inferior a três anos. Assim, os pesquisadores do Royal Free Hospital, em Londres, acompanharam os níveis de adesão na sua coorte de 2.060 pacientes que estavam sob TARV.

A adesão foi monitorada por períodos de seis meses e definida como a proporção de dias nos quais, durante esse período, os pacientes tomaram os medicamentos. Os pacientes foram avaliados em média durante 4,5 anos, tendo o acompanhamento mais longo sido feito por nove anos. Um total de 16.454 períodos de seis meses de adesão foi disponibilizado para análise. A maioria dos pacientes era do sexo masculino (78%) e manteve carga viral indetectável durante o período de acompanhamento (79%).

Resultados

Durante o estudo, a média de cobertura do tratamento para o HIV foi de 92% e este valor permaneceu estável durante sua realização. Houve uma tendência sugerindo que a adesão aumentava quanto mais tempo o paciente estivesse sob tratamento (OR = 1,02; 95% CI, 1,01 para 1,04; p = 0,0533).

Fatores associados à fraca adesão incluíam o fato de se ser do sexo masculino, heterossexual e negro (p = 0,0153). Os pesquisadores sugerem que “isto pode estar relacionado com o estatuto socioeconômico e de migrante, caracterizado pelo acesso mais difícil aos cuidados de saúde e, talvez, a menos acesso a informação”.

Indivíduos que passaram por três ou mais falências virológicas tinham significativamente menos probabilidades de adesão quando comparados com indivíduos que tinham mantido sempre carga viral indetectável (p <0,0001). Ser mais velho foi significativamente associado a melhores níveis de adesão (p < 0,0001). Os pesquisadores sugerem que os pacientes mais velhos têm maior probabilidade de comparecer às consultas e são conscientes dos efeitos clínicos negativos resultantes de uma baixa adesão.

As combinações, incluindo o atazanavir potenciado (Reyataz®) ou o saquinavir potenciado (Invirase®) foram associadas a bons níveis de adesão. Isto pode ser uma indicação da melhor tolerabilidade aos medicamentos antirretrovirais mais recentes – uma teoria apoiada pelas conclusões que os níveis de adesão foram mais fracos nos períodos iniciais do estudo (p = 0,0003).

Houve também evidência que os níveis de adesão predizem o envolvimento com cuidados de saúde relacionados ao HIV. Os pacientes com fracos níveis de adesão (abaixo dos 60% de cobertura do tratamento) tinham, significativamente, maior probabilidade de se perder no acompanhamento do que os indivíduos com melhores níveis de adesão.

Contudo, os pesquisadores concluíram que 48% dos pacientes passaram por um período de fraca adesão, apesar de estes serem episódios isolados. “Não encontramos evidências na diminuição da média nos níveis de adesão à HAART (terapia antirretroviral altamente potente) no decorrer do tempo, só pequenos aumentos”, comentam.

Os pesquisadores notaram que os níveis de adesão são consistentes com proporção elevada de pacientes com carga viral indetectável na coorte. Alguns pesquisadores sugerem que uma carga viral indetectável pode ser alcançada e mantida com uma adesão abaixo dos 95% utilizando alguns dos medicamentos antirretrovirais mais recentes.

Contudo, os pesquisadores sugerem que o valor mais elevado de adesão deve ser sempre o objetivo. Isto não só significa que existe um baixo risco de falência terapêutica e de desenvolvimento de resistência, como também que os níveis de HIV nas secreções genitais são suprimidos, reduzindo assim o risco de transmissão sexual do vírus.

Os pesquisadores concluíram que a adesão à TARV é geralmente alta na rotina clínica e normalmente não apresenta tendência para queda em longos períodos, estimulando a ideia de que é possível a manutenção da adesão por muito tempo.

Referência: Cambiano V et al. Long-term trends in adherence to antiretroviral therapy from start of HAART. AIDS (online edition). DOI:10.1097/QAD.0b013e32833847af, 2010. Veja o abstract do estudo clicando aqui.

Fonte: NAM / Aidsmap

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