Tratamento falha para 30% das pessoas com HIV, segundo dados da Unifesp

Portador do vírus HIV e em tratamento há cinco anos, o auxiliar administrativo Humberto, 34, está experimentando a sétima geração de remédios. Sem sucesso. Ele é mais um dos que engrossam a lista de pacientes que apresentam falha na resposta aos antirretrovirais. Segundo pesquisa da Unifesp, um em cada três portadores de HIV em tratamento no país tem resistência à maioria das drogas disponíveis.

Humberto é o retrato dessa situação: já usou todas as classes possíveis de remédios e está na sua última tentativa. Se desta vez não der certo, não tem outro medicamento que o substitua. "No primeiro ano, troquei de remédio quatro vezes. Depois, passei para uma medicação líquida, que me deu alergia e deixou meu corpo todo empipocado. Fiz outras tentativas e agora estou tomando essa nova classe, que é a mais moderna", diz.

Na semana passada, quando fez o último exame para medir o nível de CD4 (células de defesa) no corpo, Humberto soube que seu organismo está respondendo lentamente ao tratamento. "Aumentou de 300 para 339", comemora.

Hipóteses

Segundo o infectologista Ricardo Diaz, autor do levantamento, as principais hipóteses para explicar a resistência do vírus ao tratamento são: uso incorreto do coquetel; o vírus já era resistente antes do remédio (transmissão primária) ou pode haver alguma alteração no metabolismo do paciente.

Caio Rosenthal, infectologista do Emílio Ribas, diz que a maioria dos casos de resistência (excluindo aqueles que se contaminaram com o vírus já resistente) acontece por falha na adesão do paciente ao tratamento. "Se a pessoa toma direito e a carga viral fica indetectável, não tem como se tornar resistente. É possível usar os remédios por 20 anos sem desenvolver resistência", diz.

Ronaldo Hallal, do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, diz que a resistência também está ligada ao diagnóstico tardio. "Se a pessoa começa a se tratar com a imunidade alta, a chance de desenvolver resistência é menor. Mas, se começa o tratamento quando está doente, o risco é maior."

Ligeira melhora

A falta de adesão ao tratamento pode ser consequência dos efeitos colaterais das drogas e dos coquetéis com grande número de comprimidos - caso de Humberto, que toma seis por dia e ainda tem náuseas e diarreia.

"O mundo se preocupa com a resistência. Aqui, médicos dão aconselhamento sobre novo esquema [de tratamento] a ser adotado. É raro não ter opção", diz Hallal. Apesar de o medicamento falhar em um número alto de casos, a situação já foi pior: nos últimos cinco anos, a falha na resposta caiu 11%.

"Apesar de ainda termos 30% de falha, esse número está diminuindo ao longo dos anos", afirma Diaz. Segundo ele, com a evolução das drogas, é cada vez mais difícil a pessoa ficar sem opção de tratamento.

Fonte: Folha de S.Paulo
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