Uso prolongado de anti-retrovirais pode deixar seqüelas em pacientes

Foi numa viagem ao exterior, quanto tinha 29 anos, que o secretário Aguinaldo ficou sabendo que estava com AIDS. Era 1990 e o primeiro anti-retroviral para combater a doença, o zidovudine (AZT), tinha sido lançado havia pouco nos Estados Unidos. No dia seguinte, ele começou com a medicação por recomendação médica, sem saber o que aconteceria em seus próximos dias, talvez meses. Ele fazia parte dos então 9 milhões de pessoas no mundo com resultado positivo para o vírus.

Após 18 anos, o número de infectados atingiu os 50 milhões. Devido aos medicamentos - primeiro o AZT, em seguida inibidores de protease, depois o coquetel de anti-retrovirais -, o secretário carrega quantidades imperceptíveis de vírus no organismo. Porém, ele apresenta efeitos colaterais: deslocamentos de gordura no corpo e rosto, escoriações na pele, falta de sensibilidade nas pernas.

Este também é o caso do americano John Holloway, diagnosticado três anos antes de Agnaldo. Para ele, o resultado positivo do teste foi como uma sentença de morte. Não tão rápido quanto Aguinaldo, ele reagiu e, assim que o AZT chegou ao mercado, também aderiu ao tratamento. Hoje, leva uma vida independente. No entanto, aos 59 anos, sofre de diabetes, falência renal, tem uma úlcera aberta, câncer retal e osteoporose - doenças geralmente associadas ao avanço da idade, mas que, com seu histórico médico, podem aparecer mais cedo e com mais intensidade.

“A soma de doenças pode se tornar impressionante”, afirma Charles Emlet, pesquisador da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, que analisa os efeitos da Aids em diferentes idades. De acordo com ele, há somente estudos pequenos e inconclusivos sobre as causas de problemas de saúde relacionados à idade entre pacientes de Aids. Sem uma pesquisa definitiva, a segunda onda de sofrimento pode ser uma coincidência, apesar de ser difícil achar alguém que pense dessa maneira.

“Há um problema duplo. Os anti-retrovirais provocam alterações metabólicas, que influenciam o processamento de açúcares e gordura, por exemplo, provocando doenças cardiovasculares e diabete”, explica o infectologista Jean Carlo Gorinchteyn, responsável pelo ambulatório de idosos com HIV do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “Porém, até que ponto essas pessoas não teriam predisposição genética para desenvolver essas doenças? O que vemos é que ocorre uma concomitância e uma antecipação do surgimento delas”, diz.

Ao lado disso, alguns medicamentos levam ao aumento da creatina, provocando alterações renais que podem ocasionar falência do órgão. O próprio aumento da quantidade do vírus circulando no organismo é capaz de provocar uma nefrite, que afeta a função dos rins. Por isso, explica o infectologista, em pacientes mais suscetíveis é recomendável que a função renal seja verificada a cada 30 ou 45 dias.

Ou seja, especialistas estão começando a acreditar que sistema imunológico e órgãos de sobreviventes de longo prazo levaram um golpe irreversível antes do advento dos remédios que salvam vidas e que essas mesmas drogas depois produziram complicações adicionais por causa de sua toxicidade - dois golpes de uma só vez.

Expectativas

O envelhecimento da epidemia aumentou o interesse da comunidade científica pela relação entre AIDS, anti-retrovirais e doenças cardiovasculares, certos cânceres, diabete, osteoporose e depressão. O número de pessoas com 50 anos ou mais vivendo com HIV aumentou 77% entre 2001 e 2005, segundo o Centro Federal de Controle de Doenças dos EUA.

No Brasil, segundo dados do PN de DST/AIDS, do Ministério da Saúde, de 1996 a 2005 houve crescimento da taxa de incidência de AIDS entre homens e mulheres com mais de 60 anos. Nos homens, a taxa, que era de 5,9, passou para 8,8 (a cada 100 mil habitantes). No caso do sexo feminino, de 1,7 para 4,6. No total, hoje, são 200 mil pacientes em tratamento no País.

“O Brasil disponibiliza as drogas mais potentes desde que elas existem, então há uma quantidade grande de pessoas aqui que tomam remédios há muito tempo, pacientes de longo prazo”, afirma o sanitarista Mário Scheffer, integrante do Grupo Pela Vidda - São Paulo e antigo militante dos direitos dos pacientes com HIV.

“Mas esse perfil foi muito pouco estudado, foi subestimado, até mesmo pelos serviços de saúde. Como o benefício do remédio é infinitamente maior, há uma tendência de se menosprezar os efeitos colaterais”, complementa.

No entanto, essa visão está começando a mudar. “Com a mortalidade e internações caindo, muitas pessoas estão em tratamento, sobrevivendo e passando por vários processos terapêuticos, levando a doença como uma questão crônica, mas degenerativa”, pondera Scheffer.

Passada a fase do aumento da expectativa de vida, é hora de entender como ela está sendo vivida. Nos Estados Unidos, terá início, neste ano, o chamado Estudo Multi-Site de AIDS ou MACS (sigla em inglês). O objetivo é examinar diretamente o cruzamento da doença com o envelhecimento durante os próximos cinco anos. De acordo com o infectologista John Phair, as principais respostas que a pesquisa tentará obter são quais doenças resultam diretamente do envelhecimento e quais são decorrentes do HIV, destacando também o papel dos medicamentos anti-retrovirais nesse processo.

“A sobrevivência prolongada aliada à ocorrência natural de problemas de saúde da terceira idade levantou questões urgentes de pesquisa", afirma Phair. Segundo ele, a primeira geração de pacientes de AIDS, em meados dos anos 80, ficou sem tratamento por anos, deixando poucos sobreviventes para serem estudados. Agora, pacientes como Holloway ou Aguinaldo formam a primeira geração a passar por esses efeitos. Assim, os médicos têm a possibilidade de estudar esses organismos.

“O vírus está sob controle e eu deveria estar em estado de êxtase. Mas eu não consigo nem amarrar meu cadarço ou subir e descer as escadas. Não reclamo, apenas lido com as dificuldades conforme vão aparecendo”, conta Holloway.

Resistência

No caso de Aguinaldo, o equilíbrio para manter o corpo ativo vem de uma rotina regular, que inclui exercícios físicos, alimentação saudável, sessões de terapia e extrema pontualidade na hora de tomar as medicações. Além disso, ele recorre à espiritualidade e ao trabalho para a inclusão de portadores da doença na organização não-governamental Grupo Humanitário de Incentivo à Vida (GHIV), de Ribeirão Preto.

“Não é possível falar para não se preocuparem, que a doença hoje é crônica, que é só tomar remédio e fica tudo bem. É preciso continuar passando a mensagem da prevenção. Viver com HIV faz a gente sofrer muito. Você lida com a morte todos os dias. Com a lipodistrofia, você carrega a marca, o estigma. Olham para você e sabem que você tem AIDS. Isso é muito difícil, principalmente para você se aceitar e se manter incluído, nunca à margem”, conta ele.

Fonte: O Estado de S. Paulo, Clipping de Notícias do PN DST/Aids (29/01/08)
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